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A Caixa
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Alles Gute zum Geburtstag
sinto um carinho
tão grande e descomprometido por ti... que o meu corpo se acende inteiro da vida quente que lhe resta ainda quando tenho notícias tuas... Luis Miguel Mendes Gomes, careca para os amigos, Miguel para a família. amor para a namorada.
eu não gosto do Roy Orbison, saiba-se.
ele é, para mim, musicalmente, um símbolo de aborrecimento, de uma certa apatia bem triste, nuns óculos escuros. não sei muito bem porquê. eu não posso usar óculos escuros. a não ser que os mande graduar, e não quero. além de que nunca encontrei nenhuns que me assentassem. nunca fizeram óculos escuros para mim, penso eu. nem ósculos, parece-me. nunca vou poder esconder metade da minha face nuns óculos escuros enquanto não chega a pessoa do meu ósculo, com flores, ou qualquer coisa assim. o sol vai incomodar-me, sempre, fazendo-me lacrimejar e coçar os olhos. e a impossibilidade de poder preencher um requisito estilístico, também. às vezes procuro-te, nos centros comerciais, e espero sempre que estejas com ela. para te dar um aperto de mão. para que não saibas que me fazes uma falta muito líquida e escura. vamos embora, amor? tem que ser, não é? como acorrentar certezas em pacotes de açúcar
Bebia, naquele dia, Grand Marnier (cordon rouge).
Possuía uns copos de licor lindíssimos adquiridos num primeiro domingo de um Maio, em Belém. Na verdade, eu não me recordo se alguma vez vi copos de licor em Belém, num domingo. Vi escovas de cabelo, bules, livros usados com aquele cheiro característico a mofo que, por sinal, me agrada muito. Monóculos. Moedas. Ele tinha, no entanto, copos de licor, que usava para beber o Grand Marnier. Só. Tinha a televisão ligada num canal nacional, a RTP 1, por altura do Portugal em Directo, mas encontrava-se desatento e desapercebido, porque era, na verdade, uma fraude, um impostor, que escrevia cartas de amor, de pé, como o Fernando Pessoa, à mão, numa mesa de design clássico, na sala. Sempre na sala. Na cozinha, o lavatório: frigideiras, panelas, pratos, copos, talheres, uma vida qualquer de 1989, com resíduos de natas e azeite, tudo para lavar, um dia destes, e uma chaleira não-eléctrica abandonada no fogão, silenciada e triste. alguns pacotes de açúcar abertos, na mesa. Na cidade: várias sepulturas, sem flores, sem água. Com intrusos movendo-se de uma a outra, continuamente. Tinha uma janela enorme em vez de uma das paredes da sala, como eu sempre quis ter, só que o cenário que se apresentava através dela era exactamente esse, para infortúnio do mesmo. Era esse apenas por ser ele quem o via (eu não vejo) enquanto escrevia emblemáticas cartas de amor, à mão, em frente a ele, obrigatoriamente. O Grand Marnier, no entanto, continuava a saber a Grand Marnier. A realidade é complexa, e eram também as cartas de amor. Ardentes, aromáticas, acústicas e agonizantes almofadas, para oferecer aos homens nus aparafusados às paredes do quarto.
o Napolitano não tem música
the way I tell if something is good, is... does it make you wanna throw up?
this drawing instantly makes me feel nauseous. you can tell if something is truthful, even if you don't understand it, if it afects your body! your liver and your bowels are more important as an artist than your eyes, because they're so far away from your brain!
comunicação manipuladora nunca tive uma
vida cinematográfica. e isso é coisa que me mata. aos poucos. comunicação passiva II
a sala encontra-se já vazia. ninguém
quis esperar. talvez tivessem coisas mais importantes que fazer, não sei, talvez quisessem beber um café, fumar um cigarro. estou só: com uma poltrona do meu lado direito, um corta unhas perto do meu pé esquerdo, e um vaso pequeno de barro vazio de flores e de tudo à minha frente. não há mais nada. espero cerca de três segundos. um segundo dois segundos três segundos e agarro no corta unhas. sento-me muito devagar na poltrona e baixo-me um pouco para descalçar umas sandálias que nunca tive calçadas. espero mais três segundos. um segundo dois segundos três segundos e continuo sem saber o que dizer. portanto deixo-me ficar. começo a cortar as letárgicas unhas dos pés, e atiro-as ao vaso, num gesto mecânico, que acompanho cantando roucamente a Love Hurts, do Roy Orbison. faz um eco incomodativo. comunicação passiva I
estou neste palco, com uma camisa de noite azul, de seda,
incapaz de me representar a mim própria porque não me recordo do que é suposto dizer nem de como é suposto sentir-me. o público espera, não sei se com alguma ânsia, se com algum desdém, e tu pedes que te abra a mão direita e te dê do meu âmago, dos meus olhos, mas o meu âmago está no fim de infinitos corredores hospitalares cheios de portas que vão dar a abismos memoriais e sentimentais, e eu não sei como ir lá ter, portanto afasto a mão fechada e mantenho-me em silêncio, sem olhar para ti ou para o público. acho que em tempos eu soube percorrer esses corredores sem hesitações, como uma criança a brincar aos labirintos, e saberia dar-te uma espécie de diamante com consideráveis sementes de alfarroba, mas tu não querias. as pessoas começam a abandonar a sala, soltando baixos foda-se e paguei três euros e meio para ver isto, enquanto aparecem uns figurantes ou sei lá quem que dançam à minha volta para os entreter até que ganhe coragem. coragem? coragem de mim? e tu continuas a perseguir-me, até que as cortinas descem para uma mudança de cenário, de acto. nessa altura desapareces. eu permaneço. imóvel, enquanto várias pessoas transportam alguns objectos para perto de mim, como se eu nem estivesse aqui. tento recordar- -me, inutilmente.
groze
se escrevêssemos, de facto, um poema
juntos, palavra a palavra, então talvez conseguíssemos criar, assim, um espaço onde nos completássemos, um lugar onde existíssemos para sempre. tu e eu. palavra a palavra.
amigos, enfim, etc.
quatro amigos podem ter criado
durante anos sete ou oito planetas Terra juntos, que basta um ou dois ou três se apaixonarem para o apocalipse se dar subitamente em todos. nos planetas e neles mesmos esclareça-se. e já se sabe de antemão que só os apaixonados é que sobrevivem ao fim do mundo.
I left one of my hearts in Carvoeiro
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