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Tuesday, November 10, 2009
Alles Gute zum Geburtstag
sinto um carinho
tão grande e
descomprometido
por ti...

que o meu corpo
se acende inteiro
da vida quente
que lhe
resta ainda
quando tenho
notícias
tuas...

Posted at 11:03 pm by border
agora tu  

Luis Miguel Mendes Gomes, careca para os amigos, Miguel para a família. amor para a namorada.
eu não gosto do Roy Orbison, saiba-se.
ele é, para mim, musicalmente, um símbolo de aborrecimento, de uma certa apatia bem triste, nuns óculos escuros. não sei muito bem porquê.
eu não posso usar óculos escuros. a não ser que os mande graduar, e não quero. além de que nunca encontrei nenhuns que me assentassem.
nunca fizeram óculos escuros para mim, penso eu. nem ósculos, parece-me.
nunca vou poder esconder metade da minha face nuns óculos escuros enquanto não chega a pessoa do meu ósculo, com flores, ou qualquer coisa assim.
o sol vai incomodar-me, sempre, fazendo-me lacrimejar e coçar os olhos. e a impossibilidade de poder preencher um requisito estilístico, também.

às vezes procuro-te, nos centros comerciais, e espero sempre que estejas com ela.
para te dar um aperto de mão.
para que não saibas que
me
fazes
uma
falta
muito
líquida
e
escura.

vamos embora, amor?

tem que ser, não é?
Posted at 04:41 pm by border
comentário (1)  

como acorrentar certezas em pacotes de açúcar
Bebia, naquele dia, Grand Marnier (cordon rouge).
Possuía uns copos de licor lindíssimos adquiridos  num primeiro domingo de um Maio, em Belém. Na verdade, eu não me recordo se alguma vez vi copos de licor em Belém, num domingo. Vi escovas de cabelo, bules, livros usados com aquele cheiro característico a mofo que, por sinal, me agrada muito. Monóculos. Moedas.
Ele tinha, no entanto, copos de licor, que usava para beber o Grand Marnier. Só.
Tinha a televisão ligada num canal nacional, a RTP 1, por altura do Portugal em Directo, mas encontrava-se desatento e desapercebido, porque era, na verdade, uma fraude, um impostor, que escrevia cartas de amor,
de pé, como o Fernando Pessoa, à mão, numa mesa de design clássico, na sala. Sempre na sala.
Na cozinha, o lavatório: frigideiras, panelas, pratos, copos, talheres, uma vida qualquer de 1989, com resíduos de natas e azeite, tudo para lavar, um dia destes, e
uma chaleira não-eléctrica abandonada no fogão, silenciada e triste. alguns pacotes de açúcar abertos, na mesa.
Na cidade: várias sepulturas, sem flores, sem água. Com intrusos movendo-se de uma a outra, continuamente.
Tinha uma janela enorme em vez de uma das paredes da sala, como eu sempre quis ter, só que o cenário que se apresentava através dela era exactamente esse, para infortúnio do mesmo.
Era esse apenas por ser ele quem o via
(eu não vejo)
enquanto escrevia emblemáticas cartas de amor, à mão, em frente a ele, obrigatoriamente.
O Grand Marnier, no entanto, continuava a saber a Grand Marnier.

A realidade é complexa, e eram também as cartas de amor.
Ardentes, aromáticas, acústicas e agonizantes almofadas, para oferecer
aos homens nus aparafusados
às paredes do quarto.

Posted at 03:45 pm by border
agora tu  

 
Sunday, November 08, 2009
o Napolitano não tem música
the way I tell if something is good, is... does it make you wanna throw up?
this drawing instantly makes me feel nauseous.
you can tell if something is truthful, even if you don't understand it, if it afects your body! your liver and your bowels are more important as an artist than your eyes, because they're so far away from your brain!
Posted at 11:58 pm by border
agora tu  

 
Saturday, November 07, 2009
comunicação manipuladora
nunca tive uma
vida
cinematográfica.

e isso é coisa
que me
mata.

aos poucos.
Posted at 03:08 am by border
agora tu  

comunicação passiva II
a sala encontra-se já vazia. ninguém
quis esperar. talvez tivessem coisas mais importantes que fazer,
não sei, talvez quisessem beber um café, fumar um cigarro.
estou só: com uma poltrona do meu lado direito, um corta unhas
perto do meu pé esquerdo, e um vaso pequeno de barro
vazio de flores e de tudo
à minha frente. não há mais nada.

espero cerca de três segundos.
um
segundo
dois
segundos
três
segundos
e
agarro no corta unhas.
sento-me muito devagar na poltrona e baixo-me um pouco para descalçar umas sandálias que nunca tive calçadas.
espero mais três segundos.
um
segundo
dois
segundos
três
segundos
e
continuo sem saber
o que dizer.
portanto deixo-me
ficar.
começo a cortar
as letárgicas unhas dos pés,
e atiro-as ao vaso, num gesto
mecânico, que acompanho
cantando
roucamente
a Love Hurts, do Roy Orbison.
faz um eco
incomodativo.

Posted at 02:39 am by border
agora tu  

comunicação passiva I
estou neste palco, com uma camisa de noite azul, de seda,
incapaz de me representar a mim própria porque não me
recordo do que é suposto dizer nem de como é suposto
sentir-me.
o público espera, não sei se com alguma ânsia, se com algum
desdém, e tu pedes que te abra a mão direita e te dê do meu
âmago, dos meus olhos, mas o meu âmago está no fim de infinitos
corredores hospitalares cheios de portas que vão dar a abismos
memoriais e sentimentais, e eu não sei como ir lá ter, portanto
afasto a mão fechada e mantenho-me em silêncio, sem olhar
para ti ou para o público.
acho que em tempos eu soube percorrer esses corredores sem
hesitações, como uma criança a brincar aos labirintos, e saberia
dar-te uma espécie de diamante com consideráveis sementes de
alfarroba, mas tu não querias.
as pessoas começam a abandonar a sala, soltando baixos foda-se
e paguei três euros e meio para ver isto, enquanto aparecem uns
figurantes ou sei lá quem que dançam à minha volta para os entreter
até que ganhe coragem. coragem? coragem de mim?
e tu continuas a perseguir-me, até que as cortinas descem para
uma mudança de cenário, de acto. nessa altura desapareces.
eu permaneço. imóvel, enquanto várias pessoas transportam
alguns objectos para perto de mim, como se eu nem estivesse aqui.
tento recordar-
-me, inutilmente.


Posted at 01:54 am by border
comentário (1)  

 
Friday, November 06, 2009
groze
se escrevêssemos, de facto, um poema
juntos, palavra a palavra, então talvez
conseguíssemos criar, assim, um
espaço onde nos completássemos,
um lugar onde existíssemos para
sempre.
tu
e
eu.
palavra
a
palavra.
Posted at 04:25 pm by border
agora tu  

 
Wednesday, November 04, 2009
amigos, enfim, etc.
quatro amigos podem ter criado
durante anos
sete ou oito
planetas Terra
juntos,
que basta
um
ou dois
ou três
se apaixonarem
para o apocalipse
se dar subitamente
em todos.

nos planetas
e neles mesmos
esclareça-se.

e já se sabe
de antemão
que só os apaixonados
é que sobrevivem
ao fim
do mundo.
Posted at 03:05 am by border
comentários (2)  

 
Friday, September 11, 2009
I left one of my hearts in Carvoeiro

um dia destes
em
Praga.
até

quando vir
nuvens
púrpura
estarás por
perto.

Posted at 02:01 pm by border
agora tu  

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