Entry: velas azuis a provocar incêndios Monday, March 26, 2012



tu foste lentamente habitando o meu quarto
sem que eu me apercebesse que lá estavas
pensei que tivesses ido embora quando o teu
cheiro mudou, eu lembro-me que o teu cheiro mudou,
já não era o cheiro do meu amor, era o cheiro de outro
homem, e eu não queria que esse homem fizesse amor
comigo ou fosse comigo ao cinema, eu precisava de tomar
banho para retirar esse homem de mim, sabes, eu odeio
ter o cheiro de desconhecidos no corpo.
talvez o meu cheiro também tenha mudado, mas tu não te importaste.
eu pensei que o meu amor tinha morrido com o teu cheiro,
e o meu quarto foi perdendo espaço, os móveis cada vez mais
próximos uns dos outros, a cama, mal dando para mim, tu,
a prender-me os movimentos, mas ainda cabendo, cabendo
para ti e para todos os outros.
eu amei-te quando te queria amar, e quando não queria
o teu cheiro mudou, as tuas mãos pareciam outras,
os gritos, durante a noite, porque tu, porque eu,
os amantes, porque eu, porque tu, porque o amor,
a dizer-me que eu posso
querer.
agora que o meu quarto tem espaço, não cabe lá mais ninguém,
por muito que eu queira,
sabes que eu sempre amei porque quis,
e eu ouço-te respirar, perto do peito, sem nunca te conseguir ver.
às vezes acendo um cigarro e quase vejo os contornos do teu rosto.
sempre que te tento abraçar, o fumo desvanece, e eu volto a encostar-me
à parede, a gritar o teu nome tão furiosamente, que toda a gente, se visse,
diria que
algures na minha cabeça, eu estou doente.

   2 comments

sandra
March 27, 2012   12:35 AM PDT
 
texto 112. faz sentido.
mancha
March 26, 2012   07:35 PM PDT
 
é muito lindo até eu me identifico com ele... como amar dói e vai sempre doer... depois as pessoas perdem-se no tempo e fica aquele vazio sufocante e mortuário

Leave a Comment:

Name


Homepage (optional)


Comments